A Guerra das Laranjas – Ou a criação do problema de Olivença

No passado domingo, dia 19 de Setembro, notei umas curiosas palavras do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, quando fala do recente livro de António Ventura, A GUERRA DAS LARANJA – a perda de Olivença.

O Professor Rebelo de Sousa, refere na altura, que não se trata da guerra em que perdemos Olivença, mas sim da guerra em que foi criado o problema de Olivença.

O livro, o primeiro da História Militar, secção “Batalhas e Campanhas” a que pertence o recente “A Nau de Portugal” tem 159 páginas de 19×27 cm e divide-se em sete capítulos, a saber: 

I – Os Antecedentes da guerra
II – Os Preparativos
III – Elvas, Olivença e Juromenha
IV – Os Combates de Arronches e de Flor da Rosa
V – O cerco de Campo Maior
VI – Outras operações
VII – Os tratados de Badajoz

Além disso há 11 páginas de notas em que o autor documenta, justifica e complementa o seu trabalho.

O livro inclui muitos documentos interessantes, mapas e cartas, em que se mostra a evolução das movimentações militares dos exércitos português e espanhol, que ocorreram no ano de 1801, além de nos dar uma interessante panorama sobre as forças em presença e sobre as características e organização do exército português. São discutidas as tácticas utilizadas e explicados alguns dos movimentos de tropas, a sua razão e consequências. Ao dar aos leitores informação adicional e apresentar documentos, ao mesmo tempo o autor permite que o leitor tire as suas conclusões (se as quiser tirar).

Ficamos por exemplo a saber que o exército português se dividia na altura em Exército do Douro e Minho, Divisão da Beira, Exército do Alentejo (dividido em três divisões) referindo ainda as guarnições das praças fortes.

O resultado é um livro interessante sobre o tema, demonstrando igualmente que a “mitificação” do personagem responsável pela entrega de Olivença a Espanha, o extremenho, ”Godoy” não tem grande justificação, tratando-se do homem que “entregou a Espanha a Napoleão. Ficamos também a saber, por exemplo que as relações entre as casas reais de Portugal e de Espanha eram muito cordiais e quase familiares, sendo que, o conflito, tem também muito a ver com o posicionamento atlântico de Portugal e com a imposição pelos franceses a Espanha da sua visão continental, utilizando “Manuel odoy” como seu agente. A Espanha, não tinha o mais pequeno interesse por Olivença.

O livro refere igualmente, embora ao de leve, a questão da América do sul, muitas vezes apontada por Espanha, como argumento para a não devolução de Olivença.

Esta é aliás uma questão usada e explorada em Espanha, esquecendo sempre aquilo que é já uma realidade Histórica. Ou seja: Passados mais de duzentos anos sobre a ocupação, Olivença, continua a fazer parte de Portugal, como Gibraltar faz parte de Espanha. As perdas ou os ganhos no império não têm como se comparar com as questões relativas à unidade do território da nação que é Portugal, há quase novecentos anos.

Além do mais, a Historiografia espanhola, aponta a questão dos ganhos territoriais da América do sul, como uma prova da boa fé espanhola, mas normalmente esquece-se de que Espanha não invadiu o sul do Brasil, porque os barcos Ingleses tinham chegado a Buenos Aires, ocupavam o Rio da Prata e impossibilitavam totalmente qualquer acção militar espanhola, que foi efectivamente ordenada por Madrid. A Espanha não ficou com Olivença e com a banda oriental do Uruguai, não porque tivesse um governo justo, mas sim porque não foi militarmente capaz de invadir o sul do Brasil. Como o demonstram os documentos, vontade não lhe faltou. Se Espanha tivesse ocupado aquilo que é hoje o Rio Grande do Sul, também não teria devolvido Olivença, e encontraria outros argumentos para justificar o injustificável.

Finalmente, não é referido neste livro, (porque o autor provavelmente considerou não fazer parte do tema – no que terá alguma razão), o ocorrido mais de dez anos depois, quando Olivença foi libertada e a localidade, foi entregue pelos ingleses aos espanhóis, que entretanto tinham mudado de lado. Olivença foi “ofertada” aos espanhóis a título de recompensa, como quem dá um chocolate a uma criancinha. O Reino Unido, não está isento de culpas na questão de Olivença.

Por tudo isto, enquanto o tema de Olivença não for discutido e resolvido da única forma possível, nunca haverá um entendimento cordial verdadeiro entre Portugal e Espanha. 

Quanto mais portugueses conheçam o tema de Olivença, melhor preparados estaremos para entender o assunto quando este começar a ser discutido. Está de parabéns o autor da obra. 

Ao mesmo tempo está de parabéns Marcelo Rebelo de Sousa, ao lembras aos portugueses que a guerra das laranjas não foi a guerra da perda de Olivença, foi apenas a guerra onde se criou o problema de Olivença. O problema existe, e os problemas devem ser resolvidos.



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